3 de mar de 2016

As minhas feridas me fazem ser quem eu sou!



Nada melhor do que ouvir histórias! E, de um modo bem sutil, prestar atenção nos detalhes escondidos que algumas pessoas reservam em sua história, nos faz olhar diferente para uma situação. Sabe, ouvimos as pessoas, mas não lhe emprestamos nosso coração e não compreendemos com a razão.
Quantas vezes não entendemos um estilo de vida, algumas atitudes e até mesmo comportamentos que nós menosprezamos. Somos impacientes, intolerantes com as mágoas das pessoas, incomodados com sua realidade.
Queremos tratar tudo que nos parece estranho como normal e isso não alivia em nada a vida de alguém. Atualmente, queremos mais remediar feridas do que curá-las. Sim, é isso, não podemos curá-las. Somos incapazes! Verdadeiramente inúteis diante de situações que exigem esforço além do que podemos suportar.
Parece ser simples associarmos para todo tipo de comportamento uma doença, buscar cientificamente algum argumento que justifique comportamentos inadequados, estranhos, prejudiciais. A verdade é que muitas pessoas continuam na mesma sem a oportunidade de mudar de vida e isso chama a atenção!
Recentemente, aprendi que, tomando o conhecimento de histórias de infância ou momentos que abriram feridas na vida das pessoas, que mudou minha visão de como encarar o mundo delas.
Não se muda alguém sem tratar suas feridas!
Não se julga alguém sem conhecer as atrocidades escondidas no passado!
Não se mostra a verdade sem descobrir as mentiras!
Não se tira alguém do buraco sem lançar a corda!
Não se ajuda alguém se não se está disposto a ouvir!
Não se condena sem oportunidade de um recomeço!
Não se ganha atenção com palavras grosseiras!
Não se muda o mundo se não estamos dispostos a mudar nosso modo de viver!
Não se encontra felicidade em alicerces com rachaduras!
Não se constrói com os blocos da ilusão!
Não se passa cimento por cima de entulhos que não foram tirados!
Os tempos mudaram, as épocas passam e existem verdades que atravessam séculos sempre mostrando ao homem que o caminho é outro.
As pessoas se machucam ou são feridas emocional e fisicamente e prosseguem com a ferida aberta anos e anos. Vão tentando sobreviver com elas, na ilusão de que tudo vai ficar bem. Na verdade, quando são questionadas sem cuidado algum, logo esbravejam: "As minhas feridas me fazem ser quem eu sou." ou "Você não sabe o que eu passei" ou " "Não consigo seguir adiante sempre que eu lembro" ou "Eu já tentei mudar, mas não consigo".
Situações mal resolvidas, abusos de diversas formas, levam as pessoas a se trancarem em seu mundo, não porque talvez queiram, mas porque é onde se sentem "confortáveis" para se abrigar.
As feridas impedem de se abrir para uma nova realidade.
As feridas podem ser uma ofensa, por isso que na Bíblia em Provérbios capítulo 18 e versículo 19, diz que "O irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte..."  Carregar amarguras chegam a interferir na aparência, porque ainda está escrito no mesmo livro no capítulo 15 e versículo 13 "O coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate." Neste caso, no primeiro momento, por desconhecermos esta ferida, julgamos as pessoas nesta situação e não nos importamos em ouvir suas histórias. Um conselho e até uma ordenança neste caso é a liberação do perdão para uma vida leve e um coração curado. As pessoas nesta situação não precisam viver o resto de suas vidas carregando a dor de uma ofensa! A própria oração do Pai nosso nos ensina a pedir perdão assim como perdoamos ao que nos ofende. Em Efésios capítulo 4 e versículo 32 fiz "Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo. A resistência ao perdão te privará de relacionamentos mais felizes, de sorrir, de evoluir como pessoa. A ofensa é um fardo muito pesado que com o passar do tempo toma conta de todos seus sentimentos sem deixar espaço para gozar da alegria.
É por isso que, os ensinos de Jesus Cristo são fascinantes. Ele procurava sarar as feridas primeiro, para depois continuar o milagre no interior. Por isso disse "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu julgo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossa alma. Porque o meu julgo é suave e o meu fardo é leve." Mateus capítulo 11 e versículos 28 ao 30.
Outra ferida pode ser uma perda não superada. A ausência de alguém, de bens materiais, de relacionamentos, de forma brusca ou repentina, leva a pessoa ficar o tempo todo se questionando sobre os porquês. Nem sempre nossa mente pode compreender algumas perdas. E aqueles que estão ao redor pioram a situação fazendo questionamentos ou até acusações que cutucam mais ainda a ferida. Um exemplo de perda repentina é o caso de Jó, aliás foram muitas perdas. Ao ponto dos seus amigos, que não compreendiam a permissão de Deus, o acusarem de estar em pecado "se há iniquidade na tua mão, lança-a para fora de ti...." Jó capítulo 11 e versículo 14. É muito difícil para o ser humano lidar com perdas. Ninguém quer perder. E isso pode levar a uma vida de amargura e inconsolável! Aceitar que existem circunstâncias foge do nosso controle é um meio de superar e continuar vivendo!
Existe uma ferida que mais se trata com o perdoar a si mesmo, do que receber ajuda de outra pessoa. Estamos falando de nossos próprios erros. Cometidos muitas vezes inconsequentemente ou em situações de fraqueza. Quando nossos erros nos ferem passamos até voltar a fazer o que já tinhámos deixado: vida retrógada. Pedro, depois de ter negado Jesus, após sua morte, voltou a pescar (S. João capítulo 21 e versículo 3). O mais interessante é que nossa condição pode influenciar outras pessoas a não buscarem algo melhor. Essa passagem deixa claro que outros discípulos também o seguiram. Quando somos impedidos pelos nossos próprios erros de avançar, somos incapazes de reconhecer qualquer ajuda. A Bíblia diz neste mesmo capítulo 21, que Jesus se apresentou junto ao mar e questionou os discípulos se tinham algo para comer e eles responderam que não. Só após a ordem de Jesus em lançar a rede para a direita e, quase não podiam tirar pela multidão de peixes, que Pedro reconheceu o Senhor! Muitas vezes alguém precisa de uma ordem, de algo surpreendente para se despertar de uma vida medíocre. Pedro tentou se esconder lançando-se no mar, mas não pode resistir ao convite do Mestre para jantar. Ele havia errado, falhado com seu Senhor e precisou estar frente para ser restaurado. Jesus mostrou que ele não precisava viver daquele jeito com a culpa lhe assistindo todos os dias e lhe intimidando. Outra lição aprendemos aqui: encarar nossos erros e reconhece-los pode nos levar a sermos mais fortes que antes e ter nossas convicções aumentadas. Depois desse encontro, Pedro seguiu sua missão com uma ousadia admirável. Não é fácil admitir nossos erros, mas é preciso. 
Temos também o exemplo de Davi, que cometeu um pecado para cobrir outro, mas quando viu que poderia ficar longe da presença de Deus, se humilhou e rogou que não fosse abandonado (Salmos n° 51 e verso 11). 
Finalizando, lamentavelmente, existem pessoas que se negam a receber ajudar. Sentem prazer em vê-la sangrar toda vez que são cutucados. Fazem disso um troféu a ser carregado por toda vida, privando a si mesmo de qualquer mudança. Não se arrependem, não se humilham, não negociam a dor de uma perda, não reconhecem seus erros, se fecham em seu mundo e se isolam de qualquer tentativa de mudança de rumo. 
O fato de conhecer a história das pessoas nos levam a enxergar de forma mais compreensível a situação e ter empatia por alguém. Nem sempre vamos poder ajudar e sim entender! Mas, pelo menos, evitaremos fazer julgamentos preceptados!